Crônicas

A loja do Joca

— Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo?

— Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade.

— Peraí. Vou lá buscar.

E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda.

Essa é a segunda empreitada comercial do Joca.

Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas.

Depois virou dono de um caminhão de gado.

Também foi tratorista.

Mais tarde resolveu abandonar, por algum tempo, as atividades ligadas ao campo e entrou para a área da tecnologia.

Nessa época quase desapareceu. Já não era visto com a mesma frequência de sempre.

Acho que descobriu rapidamente que telas não conversam.

E o Joca gosta é de gente.

Gosta de contar novidades, perguntar da vida dos outros, dar notícias, ouvir histórias.

Logo abandonou a carreira tecnológica e voltou ao convívio humano.

Mas, se depender da herança, tanto da genética quanto da financeira, ainda acredito que acabará no setor rural.

Foi então que ouvi:

— Mãe, o que você está fazendo aí? Venha. Nós já vamos almoçar.

— Já vou. Estou esperando o Joca.

Lá vinha ele, carregando sua loja.

— Tia, você também quer comprar?

— Quero. O que você vende?

Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

— Eu vendo lápis… ou melhorias.

Eu esperava qualquer coisa. Mas desta vez, confesso que fugiu ao meu alcance! O que ele queria dizer com “lápis e melhorias”?

Abriu uma caixa de papelão, colocou-a sobre a cadeira e levantou a tampa.

Lá dentro havia três ou quatro lápis.

Olhei para a caixa e perguntei:

— E as melhorias? O que são?

Sem dizer uma palavra, pegou um apontador.

Ergueu-o diante de mim, como quem apresenta uma grande invenção.

— Se você já tiver um lápis, eu vendo só a melhoria.

Fez uma pequena pausa.

— Mas, se você não tiver, eu vendo o lápis… e dou a melhoria de graça.

Na lógica dos adultos, aquilo talvez nem fizesse sentido.

Na lógica do Joca, fazia todo.

Porque, para ele, um lápis nunca é apenas um lápis.

Sempre pode melhorar.

E talvez seja justamente isso que a infância saiba fazer como ninguém: enxergar melhorias onde nós só vemos um apontador.

Maria Elza G. Gonçalves

Aposentadoria e entrada na Terceira Idade. Duas mudanças importantes que ocorrem na vida das pessoas e que merecem nossa reflexão.

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